POEMAS

 

DESEJO
(Nukedrugs)

eu só desejo a morte
a morte eu desejo
a mim mesmo
com todo ensejo
sofro da pior das doenças...
seria realmente doença ?
sintomas mil...
reunidos em corpo vil...
venha a mim, vestida de preto
aniquile meu sofrimento
leve-me em seus braços
para a mansão do esquecimento...
		


INJUSTO
(Nukedrugs)
injusto tantos calores
tantos odores
contra os poucos meus
vidas vividas
atos passados
concretizados
só imaginados
não feitos meus
injusta vontade
me toma, me enforca
injusto
puro e não puro
unicamente pela vontade do ser
experimentar, usar, fazer
injusto agora
vontade que me toma
inveja que me assola
NÃO! raiva que devora, sim!
do sonho profundo
o injusto...
o injusto do ser...
		


ETERNAS SAUDADES
(Nukedrugs)

dias intermináveis
pensamentos que não vão embora
assim estou
não sei o que sinto
esqueci o que é felicidade
minha vida resumiu-se
a uma palavra...
SAUDADE...
cada segundo que se passa
uma lembraça que vem a mente
tormento...tristeza...uma dor
que poucos sentem
toda noite ao deitar...
tenho medo de adormecer
sonhar...
e ao acordar,
sentir em meu rosto
a verdade caindo
molhando o travesseiro
pudesse eu...
viver apenas no mundo dos sonhos
sonhos que outrora já foram realidade
mas que agora se transformaram
em eternas saudades...
		


DO ÓDIO AO AMOR
(Nukedrugs)

do ódio ao amor...
sou antitise
um dia suave,
briza a refrescar
noutro, forte
furacão a destruir
invisível aos olhos
sensível ao corpo
nunca despercebido
as sementes carrega
a destruição faz
antitises ironicas
ao norte, ao sul
traz tristezas
leva alegria
a leste, a oeste
leva a vida
traz a morte
sozinho....é nada
precisa do impulso
ou..., morre.
simples e ao mesmo tempo
...complexo...
complexo para quem vê de fora
simples para quem vê de dentro
complexo por nao aceitar a simplicidade
forte para causar mudanças
fraco para si mesmo
do amor ao ódio
cansado de soprar...
		


SONOS
(Nukedrugs)

                    sono
                    estou adormecendo
                    é tarde
                    dormir
                    talvez sonhar...
                    acordar
                    e não mais lembrar
                    do sonho outrora tido
                    outra hora sentido
                    mais um dia
                    enfrentar ?? Fugir...
                    enconder-se???

                    Mostrar minha face
                    Enfrentar a luz
                    Desistir como sempre
                    Outra vez vencido

                    aos gritos acordo
                    quem ? onde ?
                    ah, sim! pesadelos
                    a me visitar toda hora
                    confuso. ansioso
                    choro.
                    salgadas elas...
                    as lágrimas
                    calmas e serenas
                    lentamente deslizam
                    em minha face
                    tocam-me
                    ouço meu nome
                    frequente. estão me chamando
                    sim. ja acordei
                    logo vou...

                    Manter-se vivo
                    Esconder a tristeza
                    Dominar o choro
                    Outra vez perdido
		

AFOGADO
(Nukedrugs)

do sol que brilha lá fora
da dor que sinto aqui dentro
o vento sopra
traz as nuvens cinzentas
logo despencara a tempestade
do sofrimento
gotas salgadas da chuva
deslizam pelo céu semi-pálido
meus lábios sentem o sabor
dessa terrível dor
enchente inunda meu coração
da saudade, do lamento...
nessa água de límpida melancolia
afogado morrerei.
		

PRESENTE DOS ANJOS
(Nukedrugs)

Anjos da solidão vieram me visitar
vieram...em cadeira de rodas
pois não podiam andar...
veio um de cada vez
pois...eram anjos da solidão
me trouxeram seu mais belo presente
uma caixa...num lindo enfeite
ao tira-lo, escrito na caixa...TRISTEZA ...
ao abri-la minha alma foi sugada
para seu interior
e em seu lugar fui preenchido com o vazio
...
na madruga acordo...
escutando gritos
são eles...a me atormentar
Anjos do desespero vieram me visitar
vieram...rastejando pelo chão
pois não tinham forcas para se levantar...
me trouxeram o seu presente...
simples e único...
o ARREPENDIMENTO
do qual nunca vou me livrar...
levanto me.
entre as sombras das arvores
vejo o sol tentando nascer...
...
Anjos da escuridão vieram me visitar
vieram...com suas imensas asas...
me deram o seu presente...
com um majestoso vôo
ocultaram a luz do sol de mim...
a ESCURIDAO...este foi seu presente
sento no chão úmido
entre folhas e flores mórbidas
...
um outro anjo veio me visitar...
não o reconheço...
lindo misterioso...
com um sorriso ingênuo ...
entrega-me seu presente...
num belo embrulho...
abro.
vejo uma navalha afiada
sem pensar corto ao meu pulso
ao ver a navalha manchada...
o sangue a molhar minhas vestes...
e a gelar meu corpo...
sorrio pela primeira vez...
com minhas ultimas forças pergunto
- quem es tu, anjo ? quem es tu que me
fizeste sorrir ?.....
morro.
sem escutar a resposta...
mas não é necessária...
sei que ele foi meu ANJO DA SALVAÇÃO...
...
		

CERTEZA INCERTA
(Nukedrugs)

"GIRL - It's a coffin, a coffin! Get me out!
LESTAT - Of course it's a coffin. You're dead, love."


Semblante pálido
de quem alivia sua dor
seu pranto...o suor
alguém, um dia teve amor
necromância suscitada
suturada com lamúria
genetriz de minha fúria
AH! Crescente Lua...lembra-te ?
Seus lábios, o sabor
o veneno embriagador
olhar encantador
me conquistou com ardor
por que permitiste, condessa das paixões ?
que as asas do destino a levassem
ira fútil
arrancou-me do imo de meu coração
lembranças me corrompem
todavia, a colera ainda se faz presente
Errei... você sabe, princesa noturnal
Também têm conhecimento de que não fui único
Duplice delinquência
Ahh!
Dúbio de meus pensamentos
meu afeto perdeu-se no repúdio
Certeza Incerta...
		

IMPERFEITA
(Nukedrugs)

Por que ingrata paixão
me torturas assim ?
Sabe que não é perfeita para mim
Se farta de regras sujas
Faz-me sentir bem ao seu lado
Não posso permitir
que crie mais angústias para mim
Saudades sinto, nesse momento
Seus braços, envolto em meu corpo
Seu calor, o perfume
O beijo...
Impossível descrever com palavras
sensações provocadas por singelo
e perfeito ato.
Ahhh!
Não aguento essa dúvida
Imperfeita, eu sei...
Também sou..
Tentar...
Por que não ??
Unirmos em busca da perfeição...
		


CHUVA
(Nukedrugs)
só mais uma chuva
minha mente diz
que há algo em que devemos acreditar
talvez em meus sonhos
em meus desejos
mais uma vez sozinho
fecho meus olhos
tento escapar do sofrimento
penso em voltar ao passado
pedir desculpas
penso em voltar...
reconquistar minhas glórias
não...não...não
sentir lágrimas escorrerem de meu rosto
sangue saindo de meu pulso
não...não...não...
é só mais uma chuva...
		

TRISTEZA
(Nukedrugs)
Domina minha alma
Rege meu corpo
Não tenho mais controle
Apenas sigo sua vontade
Lutar contra...tentei
Arrasado em todas as batalhas
Desisti...
Não...Não ha vejo como inimiga
Mas não posso dizer que é minha amiga
Por que faz isso comigo ?
Não é a primeira vez que me atormenta
Porem é do modo mais forte de todos os tempos
Tento fingir que não existe...
E de repente...você me aparece sorrindo
Ironia...
Será a morte a unica saida...
Para essa atormentada e sofrida vida ?
Durmo com você...
Sonho com você...
Ao acordar e olhar no espelho...
O reflexo que vejo...você
Deslizando suavemente até encontrar meus lábios
Você está aqui agora.
A me acompanhar nestas linhas
Onde palavras tremulas escrevo
Tristeza, por que faz isto ?
		

QUERIA...
(Nukedrugs)

queria mais uma vez poder...
    ...sentir o doce sabor de seu beijo
queria mais uma vez poder...
    ...sentir calor e o conforto que seu abraço proporciona
queria mais uma vez poder...
    ...escutar sua suave voz que sempre alegra minha alma
queria mais uma vez poder...
    ...andar pelas ruas ao seu lado sem me importar com nada
    ...apenas com a felicidade que sinto ao estar com você
queria mais uma vez poder...
    ...segurar em sua mão...
    ...sentir o seu perfume que me embriaga de paixão
queria mais uma vez poder...
    ...olhar nos seus olhos e dizer que te amo.
		

PARTIDA
(Nukedrugs)

o que minha alma gostaria de dizer hoje
já não faz diferença nenhuma....
porém minha alma continua sendo sufocada...
um único desejo
um único sonho...
a vontade secreta de ter aquilo
que não me pertence mais...
que o destino arranco de minha mão...
machucou meu coração
o que me resta agora
o ódio perante mim
a depressão e a solidão
brincando juntas dentro de meu corpo
hoje vejo que não sou feliz
que nunca fui
apenas tive momentos felizes
mas nunca a felicidade em si
ela esteve perto mas não quiz conversar
sempre senti que iria embora
mas não queria acreditar
por que fostes ?
		


ANJO MAL
(Nukedrugs)

De onde você surgiu ??
Do céu ou do Inferno ??
Linda e perfeita
Serena e Alegre
como um belo anjo
Ao mesmo tempo...
me alucina vontades e desejos...
Como um anjo mal...
Tornou-se minha essência de vida
Sem ti, nada irá me confortar
Ainda me levaras a cometer um pecado
que será perdoado...
		

EMBRIAGUEZ
(Nukedrugs)
Sentado, balançando a cadeira
degusto o vinho quente e viscoso
De frente, em outra cadeira
Rosto pálido,
braços estendidos em direção ao chão...
Ela. Linda e perfeira, chora...
Lágrimas de sangue,
que saem de seu pulso lentamente
Corte que outrora fiz quando estava
embriagado de ciúmes.
Agora...
Me embriago com o sangue de meu amor...
		

 

ATO I
(Nukedrugs)

Raio de sol que tilinta
Vento uivante
a chuva chora
pensamentos fluem ao longo
de todo o fio da navalha
a gota cai
junto a poça da imensa solidão
ao sentar na cadeira
minhas pernas trêmem
o meu pensamento se volta
Apenas um ponto no horizonte
O horizonte some
não me presenteia com o pôr do sol
		

 

ATO II
(Nukedrugs)

Oh doravante dor
que neste momento traz
minha alegria
Ao chão vejo a lâmina
manchada com o vinho
Quente e viscoso
Ao seu brilho vejo
o coraçao pulsante
Rápido, Devagar...
Devagar, Rápido...
Tentando sobreviver...
		

ATO III
(Nukedrugs)

Quando as ações se acabam
vem as palavras
sentimentos ocultos
idéias abstratas...
mas quando até estas se vão...
nos sobra o poço da solidão...
ainda há um fio de força
para que possamos segurar a corda
para alguém nos puxar...
		

ATO IV
(Nukedrugs)

Sem mais palavras
parto para as ações
Braços trêmulos
Coração acelerado
Agora só resta o
Ato ser concretizado
Desejos Sublimes
Vontades reveladas
Ainda quero mais
vou correr atras
se não puder ter
prefiro....morrer!
		

 

DÚVIDA
(Minha mulher Manoella)

Do meu ventre a dor
Reflexão através de seus significados
Processos inacabados
Sonhos abandonados
Palavras na brisa
Refresca e Arrepia
Única e própria
Sua
Sem motivo ou razão
E a dor
E a sensação
E o medo
E a solidão
A força que vai diminuindo
Se apagando com o tempo
Tempo que traz a dor
E no ventre
Da menstruação
Do ser mulher
Indecisão
Sonhos transparentes
Em um mar de
Amor...
		


INSÔNIA
(Minha mulher Manoella)
Não vou conseguir dormir
Meus braços pedem seu corpo
Preciso de seu calor
Me viro e reviro na cama a noite toda
Vou te chamar, te ligar
Te convencer a me fazer dormir
Mas mesmo se você vier
Irá embora... e ...
Vou acordar e não vou
Mais conseguir dormir!
Acordo muitas vezes ... não
Dá tempo nem de sonhar...
Que saudade!
Vou berrar!
Lembro dos beijos
Sinto o cheiro
Quero beijar!
Cheirar! Morder!
Não consigo arranjar uma
Posição confortável...
Me viro e reviro mais...
Bateu ciúmes novamente...
Por que esta não pode ser sua cama????
Tou cansada... quero dormir
Vou continuar pensando
Na minha criança da noite...
Que dorme agora!
Que amo agora!
Que mimo amanhã!
Não vou dormir
Vou somente parar de escrever...
Saudade dele...
Sinto falta de dormir...
Mas preciso dele pra dormir!
Maldita insônia...
		

LÁGRIMAS
(Minha mulher Manoella)

Tudo começa com aquela sensação
de algo querendo surgir
logo vêm as lágrimas,
lágrimas que ardem e
provam o sentimento
que só cresce
como uma flor que floresce
Lágrimas singelas...

Rima idiota!!
Grita!! Não!
Silêncio.
Lágrimas de vergonha...

A fumaça surgiu da queimadura
alguns segundos de prazer
sem dor, sem amor, sem medo
só o calor
Lágrimas...

E isso passa, e tudo volta
doendo cada vez mais
como antes o pânico fazia latejar
Agora a pele que se modifica
ajuda o desespero se estabelecer
medo da dor... e do amor...
Lágrimas com medo...

A marca surge enquanto o sangue escorre
não é profundo pra matar
mas rasgou, e jorra
eis o desejo
Lágrimas pra sonhar...

Abandonou a chama
respiração agora ofegante
e como dói
Lágrimas de dor...

Corre! Corre! Não deixa ninguém ver.
Todos impotentes!
Culpados. Sem culpa
Silencio!!!!!!
Alguém vai perceber.
Não chora
Não geme
shhhhhhhhhhh
Ninguém pode saber.
Lágrimas caladas...

Os olhos se voltam para a dor
Um suspiro
Agora sim você percebe o que fez
Pavor. Arrependimento
a marca vai ficar
a imagem dessa cicratiz já não é na pele
a alma responde:
a tristeza que estava
nesse momento já é você
aprende, burra!
Agora.. chorar não vai resolver...
Mais lágrimas...

Só lágrimas.
		

CADA UM SÓ
(Minha mulher Manoella)

cada momento perdido
cada segundo isolado
cada dia vivido
cada pedaço quebrado

um coração dolorido
um minuto acabado
um amor morrido
um ódio criado

só um instante
só um momento
só uma ferida
só um sofrimento

cada lagrima escorrida
cada segundo cortado
cada parte destruída
cada pedaço queimado

um momento perdido
um segundo isolado
um dia vivido
um pedaço quebrado

cada coração dolorido
cada minuto acabado
cada amor morrido
cada ódio criado

sangue que jorra
chamas que queimam
punhal que fura
facão que corta
dor que dói
só dói
de cada
só de cada
de cada um
só dói
mais e mais
		

ADEUS, MEUS SONHOS
(Alvares de Azevedo)
Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus? Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!
		

AMOR
(Alvares de Azevedo)

"Quand la mort est si belle,
Il est doux de mourir."
(Victor Hugo)

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!
		


LEMBRANÇA DE MORRER
(Alvares de Azevedo)

"No more! o never more!" - (Shelley)

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai… de meus únicos amigos,
Pouco - bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo…
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!
		

LAGRIMAS DE SANGUES
(Alvares de Azevedo)

"Taedet animam meam vitae meae." - (Jó)

Ao pé das aras no clarão dos círios
Eu te devera consagrar meus dias;
Perdão, meu Deus! perdão
Se neguei meu Senhor nos meus delírios
E um canto de enganosas melodias
Levou meu coração!

Só tu, só tu podias o meu peito
Fartar de imenso amor e luz infinda
E uma Saudade calma;
Ao sol de tua fé doirar meu leito
E de fulgores inundar ainda
A aurora na minh'alma.

Pela treva do espírito lancei-me,
Das esperanças suicidei-me rindo...
Sufoquei-as sem dó.
No vale dos cadáveres sentei-me
E minhas flores semeei sorrindo
Dos túmulos no pó.

Indolente Vestal, deixei no templo
A pira se apagar — na noite escura
O meu gênio descreu.
Voltei-me para a vida...  só contemplo
A cinza da ilusão que ali murmura:
Morre! — tudo morreu!

Cinzas, cinzas... Meu Deus! só tu podias
À alma que se perdeu bradar de novo:
Ressurge-te ao amor!
Malicento, da minhas agonias
Eu deixaria as multidões do povo
Para amar o Senhor!

Do leito aonde o vício acalentou-me
O meu primeiro amor fugiu chorando.
Pobre virgem de Deus!
Um vendaval sem norte arrebatou-me,
Acordei-me na treva... profanando
Os puros sonhos meus!

Oh! se eu pudesse amar!... — É impossível!
Mão fatal escreveu na minha vida;
A dor me envelheceu.
O desespero pálido, impassível
Agoirou minha aurora entristecida,
De meu astro descreu.

Oh! se eu pudesse amar!  Mas não:
agora Que a dor emurcheceu meus breves dias,
Quero na cruz sangrenta
Derramá-los na lágrima que implora,
Que mendiga perdão pela agonia
Da noite lutulenta!

Quero na solidão — nas ermas grutas
A tua sombra procurar chorando
Com meu olhar incerto:
As pálpebras doridas nunca enxutas
Queimarei... teus fantasmas invocando
No vento do deserto.

De meus dias a lâmpada se apaga:
Roeram meu viver mortais venenos;
Curvo-me ao vento forte.
Teu fúnebre clarão que a noite alaga,
Como a estrrla oriental me guie ao menos
Té o vale da morte!

No mar dos vivos o cadáver bóia
— A lua é descorada como um crânio,
Este sol não reluz:
Quando na morte a pálpebra se engóia,
O anjo se acorda em nós — e subitâneo
Voa ao mundo da luz!

Do val de Josafá pelas gargantas
Uiva na treva o temporal sem norte
E os fantasmas murmuram...
Irei deitar-me nessas trevas santas,
Banhar-me na frieza lustral da morte
Onde as almas se apuram!

Mordendo as clinas do corcel da sombra,
Sufocando, arquejante passarei
Na noite do infinito.
Ouvirei essa voz que a treva assombra,
Dos lábios de minh'alma entornarei
O meu cântico aflito!

Flores cheias de aroma e de alegria,
Por que na primavera abrir cheirosas
E orvalhar-vos abrindo?
As torrentes da morte vêm sombrias,
Hão de amanhã nas águas tenebrosas
Vos rebentar bramindo.

Morrer! morrer! É voz das sepulturas!
Como a lua nas salas festivais
A morte em nós se estampa!
E os pobres sonhadores de venturas
Roxeiam amanhã nos funerais
E vão rolar na campa!

Que vale a glória, a saudação que enleva
Dos hinos triunfais na ardente nota,
E as turbas devaneia?
Tudo isso é vão, e cala-se na treva
— Tudo é vão, como em lábios de idiota
Cantiga sem idéia.

Que importa? quando a morte se descarna,
A esperança do céu flutua e brilha
Do túmulo no leito:
O sepulcro é o ventre onde se encama
Um verbo divinal que Deus perfilha
E abisma no seu peito!

Não chorem! que essa lágrima profunda
Ao cadáver sem luz não dá conforto...
Não o acorda um momento!
Quando a treva medonha o peito inunda,
Derrama-se nas pálpebras do morto
Luar de esquecimento!

Caminha no deserto a caravana,
Numa noite sem lua arqueja e chora...
O termo... é um sigilo!
O meu peito cansou da vida insana;
Da cruz à sombra, junto aos meus, agora
Eu dormirei tranqüilo!

Dorme ali muito amor... muitas amantes,
Donzelas puras que eu sonhei chorando
E vi adormecer.
Ouço da terra cânticos errantes,
E as almas saudosas suspirando,
Que falam em morrer...

Aqui dormem sagradas esperanças,
Almas sublimes que o amor erguia...
E gelaram tão cedo!
Meu pobre sonhador! aí descansas,
Coração que a existência consumia
E roeu um segredo! ...

Quando o trovão romper as sepulturas,
Os crânios confundidos acordando
No lodo tremerão.
No lodo pelas tênebras impuras
Os ossos estalados tiritando
Dos vales surgirão!

Como rugindo a chama encarcerada
Dos negros flancos do vulcão rebenta
Goltejando nos céus,
Entre nuvem ardente e trovejada
Minh'alma se erguerá, fria, sangrenta,
Ao trono de meu Deus...

Perdoa, meu Senhor!  O errante crente
Nos desesperos em que a mente abrasas
Não o arrojes p'lo crime!
Se eu fui um anjo que descreu demente
E no oceano do mal rompeu as asas,
Perdão! arrependi-me!
		

MEU DESEJO
(Alvares de Azevedo)
Meu desejo? Era ser a luva branca
Que essa tua gentil mãozinha aperta;
A camélia que murcha no teu seio,
O anjo que por te ver do céu deserta...

Meu desejo? Era ser o sapatinho
Que teu mimoso pé no baile encerra...
A esperança que sonhas no futuro,
As saudades que tens aqui na terra...

Meu desejo? Era ser o cortinado
Que não conta os mistérios de teu leito;
Era de teu colar de negra seda
Ser a cruz com que dormes sobre o peito.

Meu desejo? Era ser o teu espelho
Que mais bela te vê quando deslaças
Do baile as roupas de escomilha e flores
E mira-te amoroso as nuas graças!

Meu desejo? Era ser desse teu leito
De cambraia o lençol, o travesseiro
Com que velas o seio, onde repousas,
Solto o cabelo, o rosto feiticeiro...

Meu desejo? Era ser a voz da terra
Que da estrela do céu ouvisse amor!
Ser o amante que sonhas, que desejas
Nas cismas encantadas de langor!
		

MEU SONHO
(Alvares de Azevedo)

Eu
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangüenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso…
E galopas do vale através…
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?…
Tu escutas… Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? – que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?
O Fantasma
Sou o sonho da tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!…
		

MINHA DESGRAÇA
(Alvares de Azevedo)
Minha desgraça não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...

Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro...

Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito blasfema,
É ter para escrever todo um poema
E não ter um vintém para uma vela.
		

OH! PAGINAS DA VIDA QUE EU AMAVA
(Alvares de Azevedo)

Oh!  Páginas da vida que eu amava,
Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado! ...
Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!

E que doudo que eu fui! como eu pensava
Em mãe, amor de irmã! em sossegado
Adormecer na vida acalentado
Pelos lábios que eu tímido beijava!

Embora — é meu destino.  Em treva densa
Dentro do peito a existência finda
Pressinto a morte na fatal doença!

A mim a solidão da noite infinda!
Possa dormir o trovador sem crença
Perdoa minha mãe - eu te amo ainda!
		

PEDOA-ME, VISAO DOS MEUS AMORES
(Alvares de Azevedo)

Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!

De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...

Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...

Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
		

POR QUE MENTIAS ?
(Alvares de Azevedo)
Por que mentias leviana e bela?
Se minha face pálida sentias
Queimada pela febre, e minha vida
Tu vias desmaiar, por que mentias?

Acordei da ilusão, a sós morrendo
Sinto na mocidade as agonias.
Por tua causa desespero e morro...
Leviana sem dó, por que mentias?

Sabe Deus se te amei! Sabem as noites
Essa dor que alentei, que tu nutrias!
Sabe esse pobre coração que treme
Que a esperança perdeu por que mentias!

Vê minha palidez- a febre lenta
Esse fogo das pálpebras sombrias...
Pousa a mão no meu peito! Eu morro! Eu morro!
Leviana sem dó, por que mentias?
		

PALIDA INOCENCIA
(Alvares de Azevedo)

"Cette image du ciel - innocence et beauté!" - (Lamartine)

Por que, pálida inocência,
Os olhos teus em dormência
A medo lanças em mim?
No aperto de minha mão
Que sonho do coração
Tremeu-te os seios assim?

E tuas falas divinas
Em que amor lânguida afinas
Em que lânguido sonhar?
E dormindo sem receio
Por que geme no teu seio
Ansioso suspirar?

Inocência! Quem dissera
De tua azul primavera
As tuas brisas de amor!
Oh! Quem teus lábios sentira
E que trêmulo te abrira
Dos sonhos a tua flor!

Quem te dera a esperança
De tua alma de criança,
Que perfuma teu dormir!
Quem dos sonhos te acordasse,
Que num beijo t’embalasse
Desmaiada no sentir!

Quem te amasse! E um momento
Respirando o teu alento
Recendesse os lábios seus!
Quem lera, divina e bela,
Teu romance de donzela
Cheio de amor e de Deus!
		

PALIDA A LUZ
(Alvares de Azevedo)

Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti as noites eu velei chorando,
Por ti nos sonhos morrerei sorrindo!
		

SE EU MORESSE AMANHA
(Alvares de Azevedo)
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que dove n'alva
Acorda a natureza mais loucã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!
		

SONETO
(Alvares de Azevedo)

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós — e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!
		

TARDE DE OUTONO
(Alvares de Azevedo)
"Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur." - (Alfred de Musset)

O Poeta:

Oh!  Musa, por que vieste,
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?

A Saudade:

De um puro amor a lânguida Saudade
É doce como a lágrima perdida
Que banha no cismar um rosto virgem,
Volta o rosto ao passado, e chora a vida.

O  Poeta:

Não sabe o quanto dói
Uma lembrança que rói
A fibra que adormeuceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minha alma viveu.

A Saudade:

Pálidos sonhos no passado morto
É dove reviver mesmo chorando.
A alma refez-se pura. Um vento aéreo
Parece que de amor nos vai roubando.

O Poeta:

Eu vejo ainda a janela
Onde à tarde junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d’enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!

Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair ?

A Saudade:

A casa está deserta.  A parasita
Das paredes estala a negra cor.
Os aposentos o ervaçal povoa.
A porta é franca...  Entremos, trovador!

O Poeta:

Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me prantos, ó meu Deus!
Eu quero chorar aqui!
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!

Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em Saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.

A Saudade:

Sonha, Poeta, sonha!  Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo - dos amores à cantiga.

O Poeta:

Minha alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperaçança,
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!

Ali amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi.
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!

Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!

Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver!
Tão doce, que em mim sentia
Que minh'alma se esvaía
E eu pensava ali morrer!

A Saudade:

É berço de mistério e d'harmonia
Seio mimoso de adorada amante.
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.

Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem,
E a vida foge ao peito ... apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.

Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E a voz dela é um hino.

Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.

Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do Poeta
Doira a amante de nova formosura!

O Poeta:

Que gemer! não me enganava?
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas,
As venturas tão choradas
Que vibram meu coração?

É tarde, amores, é tarde;
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...
		

TRINDADE
(Alvares de Azevedo)

A vida é uma planta misteriosa
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...

E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!

A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...

Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!
		


NA MINHA TERRA
(Alvares de Azevedo)

"Laisse-toi donc aimer!
Oh! l'amour c'est Ia vie
C'est tout ce qu'on regeste et tout ce quon envie,
Quand on voit sa jeunesse au couchant décliner.
La beauté cest le front, l'amour cest Ia couronne,
Laisse-toi couronner!"
(Victor Hugo)

Amo o vento da noite sussurrante
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;

E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;

A restinga d'areia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;

E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;

E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
Às estrelas do céu.

II

Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;

Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!

Sonho da vida que doirou e azula
A fala dos amores,
Onde a mangueira ao vento que tremula
Sacode as brancas flores,

E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir;

Mais formoso não é: não doire embora
O verão tropical
Com seus rubores e alvacenta aurora
Na montanha natal,

Nem tão doirada se levante a lua
Pela noite do céu,
Mas venha triste, pensativa e nua
Do prateado véu

Que me importa?  se as tardes purpurinas
E as auroras dali
Não deram luz às diáfamas cortinas
Do leito onde eu nasci?

Se adormeço tranqüilo no teu seio
E perfuma-se a flor
Que Deus abriu no peito do Poeta,
Gotejante de amor?

Minha terra sombria, és sempre bela,
Inda pálida a vida
Como o sono inocente da donzela
No deserto dormida!

No italiano céu nem mais suaves
São as noites os amores,
Não tem mais fogo o cântigo das aves
Nem o vale mais flores!

III

Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria,

No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que Saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!

E quando à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo,
E o lábio palpitante...

Cheia de argêntea luz do firmamento
Orando por seu Deus,
Então... eu curvo a fronte ao sentimento
Sobre os joelhos seus...

E quando sua voz entre harmonias
Sufoca-se de amor,
E dobra a fronte bela de magias
Como pálida flor,

E a arma pura nos seus olhos brilha
Em desmaiado véu,
Como de um anjo na cheirosa trilha
Respiro o amor do céu!

Melhor a viração uma por uma
Vem as folhas tremer,
E a floresta saudosa se perfuma
Da noite no morrer,

E eu amo as flores e o doce ar mimoso
Do amanhecer da serra
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra!
		

É Ela! É Ela! É Ela! É Ela!
(Alvares de Azevedo)
É ela! É ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura —
A minha lavadeira na janela!

Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas;
Eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! Que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adromecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido...

Oh! de certo... (pensei) é doce página
Onde a alma derramou gentis amores;
São versos dela... que amanhã de certo
Ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
Eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! É ela! — repeti tremendo;
Mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! Meu Deus! Era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas
Se achou-a assim mais bela — eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camizinhas!

É ela! É ela! meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! É ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!
		

 

ULTIMO SONETO
(Alvares de Azevedo)

Já da noite o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito, embalde num macio encosto,
Tento o sono reter!... Já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos, por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!
		

DOR
(Caroline Cristofolini)
Entraste em mim,
Cortaste meu coração para toda a eternidade,
Tudo em mim é escuro, fundo e vazio,
Graças a você...

Lentamente destruíste meu corpo,
Meu espírito,
Minha vida.
No fogo das velas vejo teu rosto.
No cemitério descanso, penso...
Entre fantasmas, sombras,
Sinto o cheiro das flores,
Ouço vozes ao vento.

Alimento-me do ódio,
Graças a você.

Lágrimas e sangue no chão,
Névoa cinza.
Minh´alma cada vez mais escura, pútrida e maligna.
Destruição extrema,
Tudo em chamas...

Graças a você,
Mórbida dor,
Mórbido amor destruído.
		

SONETO DA DIVINDADE
(Sininho)
Vulto negro que avisto chegar
De onde vieram teus olhos de aurora
São pedras da lua, aonde tu moras?
Para que viestes meus lábios provar?

Amor divino, esta noite é pequena
Se tua alma trepida me foge do corpo
Sinto-me frio - de repente estou morto!
E torno à vida aonde a vida é efêmera

Com estas vestes de malvada
Beija como um anjo, uma fada
Depois se vai o meu desejo

Sai sem deixar uma palavra rouca
Só o gosto, de tão doce boca,
Ainda mais doces os beijos
		

O QUE FOR
(Sininho)

Peripécia ou arte, do destino ou do acaso
O anjo sublime q me pôs do teu lado
hoje se ofusca na escuridão do incerto

Como cegos, em um vício desconhecido
Ainda sedentos, ou incompletos, ou famintos
Somos imunes ao bem e ao mal

Uma estranha necessidade de alongar cada momento
Gritou tua voz entre os meus pensamentos
Mesmo sem nunca ter te sentido o silêncio

Como se nossos corpos se consumissem com frieza
As palavras tornam gélido o sangue nas veias
e as almas tão perto e, ainda assim, tão longe...

O que for, que seja eterno, imortal e infinito
Então quando a palavras já não fizerem sentido
Um ósculo preencherá o vazio entre os lábios...
		

PHIELL
(^Bloody)

Nos piores momentos da minha vida,
você está comigo...
Nunca deixou de existir em meu coração
Sempre está morando dentro de mim

Quando não me acompanha,
é porque você apenas dormiu
por poucos instantes
Mas sei que voltará a me invadir
com toda sua força

É minha melhor companheira
e jamais me abandona
Você é a única que morrerá comigo,
por isso acho que me ama
Pois acho que a amo também
Amo você, tristeza...
		

 

EPILOGO
(Desconhecido)

Um epílogo.
Demorado fim. Não sabia quanto havia se passado.
Duas horas? Cinco minutos, talvez.
Na verdade, o tempo não importava.
Naquele lugar, naquele momento, era praticamente impossível que
alguém estivesse perto o suficiente para observá-lo ou para impedi-lo.
Ainda assim ele hesitava. Não porque estivesse preocupado com a
possibilidade de alguém estar testemunhando a cena, mas porque já
sabia que uma pessoa estava: ele mesmo.
Tinha completa noção do porquê estava lá e o que tinha que fazer,
mas ainda se esforçava para se lembrar, ou talvez inventar um
motivo que o detivesse.

Pensar demais era seu maior problema, diziam.
Encostou o cano da arma no queixo e a engatilhou. Dezessete anos.
Valeria a pena morrer após tão poucos anos de existência?
Valeria a pena viver após tantos anos de sofrimento?
Não sabia a resposta. "O que leva um jovem ao suicídio?".
Não, esse pensamento não era dele, ele o havia ouvido em algum lugar.
Na televisão, talvez. Embora desprezasse quaisquer programas de
auto-ajuda por considerá-los sentimentais demais.
Desprezava, possivelmente, os sentimentos em si.
Há quanto tempo os havia esquecido? Não se lembrava. Ou não queria lembrar.
Percebeu que estava se dispersando novamente, precisava se concentrar.
Segurou novamente, desta vez com mais firmeza, o cabo do revólver e fechou
os olhos. Fechar os olhos. Quem dera o mundo pudesse desaparecer
através de um ato tão simples. Não. Pensamento piegas de poetas de
segunda. Quem devia desaparecer era ele. Discordava do mundo.
Não se encaixava no mundo. Não gostava do mundo.

Precisou estar tão próximo de atingir a maturidade para tomar a
decisão, e agora não podia mais voltar atrás. Ou podia?
Estava confuso, não imaginava que a escolha seria tão difícil,
pois em toda a sua vida só havia enfrentado escolhas simples, óbvias.
Como no primário, lembrou. Os colegas sempre o procuravam para pedir
ajuda, e ele jamais hesitou. Sentia-se bem ajudando-os. Importante.
Haviam pessoas que dependiam dele. Dependiam. Ou usavam?
Sua mão estremeceu segurando a arma. Necessitaram de sua bondade? Não.
Apenas se aproveitaram de sua ingenuidade e, tal como o fracasso que
sempre foi, ele aceitou passivamente, sorrindo, até, aquele abuso.
Talvez tenha merecido aquilo, resignou-se. Sempre tirava notas mais
altas do que os outros e jamais cobrava ou esperava agradecimentos
pela ajuda. Ajudava, inclusive, aqueles que lhe davam apelidos que ele
odiava. Aliás, ele nunca entendeu o porquê de certos apelidos
específicos: jamais estudou mais do que o mínimo necessário.
Não era bom nos esportes, é verdade, mas não queria abrir mão de sua
vida social.
Eram os outros que não lhe permitiam tê-la. Sua mão afrouxou.
A culpa não era dele. Ou era? Afinal, ele era o diferente.
Ele era a aberração, por mais que se considerasse certo. Não entendia,
no ginásio, a obsessão dos colegas por relacionamentos que raramente
ultrapassavam a duração de uma semana.
O que ele pretendia era conhecer alguém que combinasse e ter com essa
pessoa uma relação estável e duradoura. Nunca descobriu o que havia de
errado nessa idéia, mas sabia pelo menos que ela estava errada, pois
aparentemente nenhum de seus colegas concordava. E eles eram maioria.

Notou naquela época que, de fato, pensava demais. Sentia demais.
Talvez fosse mesmo seu principal defeito. Mas não podia mudar de
repente, pois os colegas já o conheciam bem. Mudar a própria imagem
não iria mudar a imagem que durante anos os outros criaram para ele.
Decidiu naquela época que os novos colegas que iria conhecer no colegial
veriam uma pessoa completamente diferente daquela que ele havia sido até
então. Falso. Hipócrita. Mentiroso. Apertou a arma novamente, desta vez
contra a têmpora. Talvez devesse mesmo morrer afinal de contas.
Não sabia o que estava sentindo. Como já se recordara minutos antes,
há muito não sabia o que era sentir. Desde os quinze anos ele havia
se refugiado atrás de uma máscara de sarcasmo e insensibilidade.
Suas notas não eram mais tão impressionantes como antes, mas ele
estava curiosamente confortável num papel que não era seu. Achou
que finalmente havia encontrado a resposta: não se importar.
As preocupação jamais o deixaram, mas ele passou a ignorá-las.
Era, talvez, a única maneira de tornar-se como "os outros".

Ao invés de magoar-se com as opiniões alheias, passou a desprezá-las.
Deixara de ligar-se emocionalmente a qualquer elemento, incluindo
pessoas. Induvíduos passaram a ser apenas instrumentos para alcançar
seus objetivos. Através do novo comportamento, os outros não mais o
afastavam, mas ironicamente ele estava mais distante do que nunca.
O sarcarsmo que o tornava popular expressava um genuíno ódio pelas
pessoas. Certa vez, ainda no ginásio, depois de suportar insultos
durante anos, ele agrediu um garoto de sua classe com uma cadeira.
O garoto sofrera traumatismo craniano e acabou no hospital, enquanto
ele sofrera uma suspensão. A primeira em toda a sua vida. Desde
aquele incidente, ele deixou de conter sua raiva, liberando-a aos
poucos na forma de comentários pouco sutis, que todos consideravam
como "brincadeiras" ou "piadas".

Quisera ele acreditar nisso. Sua mão continuava firme, mas seus olhos
se abriram. O que ele havia se tornado? Nada, concluiu.
A máscara havia mudado, mas ele nunca havia deixado de ser o garoto
inseguro do primário, o impopular do ginásio e o insensível do colegial.
Aquele que sofria nas mãos do irmão mais velho diariamente.
Aquele que era esquecido pelos pais por ser o caçula.
Aquele que era ridicularizado pelo banal fato de ser mais inteligente.
Aquele que era rejeitado por garotas fúteis e superficiais.
Aquele que... Uma lágrima escorreu pelo seu rosto ao mesmo tempo em que a
arma chocou-se contra o chão, com um baque metálico.

Afinal compreendeu, com um sorriso, sua existência.
Durante anos ele havia acreditado que o humor negro desenvolvido
no colegial tinha o ódio como fonte. Uma mentira em que, como tantas
outras, ele havia acreditado.
Na verdade, em cada insulto sarcástico, em cada comentário irônico,
ele estava rindo de si mesmo. Da vítima indefesa que era.
Chutou a arma para longe. Não merecia morrer. Nunca havia feito nada
de errado. Sempre havia vivido em função de padrões alheios; estava
na hora de viver por conta própria. Nunca havia se adaptado ao mundo,
admitiu, mas o problema não era ele.

Era o mundo. E apenas parte do problema havia sido eliminada.
Correu e pegou a arma do chão. Ela ainda seria útil, pensou.
Pela primeira vez em toda a sua vida, estava feliz.
Nunca esteve errado. Sempre esteve certo.
Todos os outros é que estavam errados, e descontavam sua frustração nele.
Pela sua perfeição. Pela sua superioridade. Talvez fosse uma maneira
hipócrita, se não pretensiosa, de enxergar a própria vida. Sorriu.
Bem, isso era uma característica humana que ele iria se dar ao luxo
de manter. Apenas parte do problema, repetiu mentalmente enquanto
acariciava o revólver. Apenas parte.

Lentamente afastou-se da casa abandonada onde, há minutos atrás, pretendia
permanecer eternamente. Suicídio? Riu da idéia recentemente abandonada.
Olhou novamente para o casebre onde havia deixado o passado, junto com os
corpos baleados de seus pais, de seus irmãos e de seus colegas de classe.
Não havia motivo para juntar-se a eles, uma vez que tudo o que ele quis
em vida foi afastá-los. E finalmente sabia o motivo de sempre ter feito isso.
Engatilhou a arma. Ainda haviam muitos outros como ele no mundo,
que precisavam de um estímulo para despertar.

Não, não era um epílogo.
Era apenas o começo...
		

CARTA DE UM BEBE
(Desconhecido)
Oi mamãe, tudo bom?
Eu estou bem, graças a Deus, faz apenas alguns dias que vc me concebeu em sua
barriguinha.
Na verdade, não posso explicar como estou feliz em saber que você será minha mamãe,
outra coisa que me enche de orgulho é ver o amor com que fui concebida.
Tudo parece indicar que eu serei a criança mais feliz do mundo!
Mamãe, já passou um mês desde que fui concebida, e já começo a ver como o meu
corpinho começa a se formar, quer dizer, não estou tão linda como você, mas me dê
uma oportunidade! Estou muito feliz!
Mas tem algo que me deixa preocupada...
Ultimamente me dei conta de que há algo na sua cabeça que não me deixa dormir,
mas tudo bem, isso vai passar, não se desespere.
Mamãe, já passaram dois meses e meio, estou muito feliz com minhas novas mãos e
tenho vontade de usá-las para brincar...
Mamãezinha me diga o que foi ?
Por que vc chora tanto todas as noites ?
Porque quando vc e o papai se encontram, gritam tanto um com o outro ?
Vocês não me querem mais ou o que? Vou fazer o possível parar que me queiram...
Já passaram tres meses, mamãe, te noto muito deprimida, não entendo o que está
acontecendo, estou muito confuso.
Hoje de manhã fomos ao médico e ele marcou uma visita amanhã.
Não entendo, eu me sinto muito bem...por acaso você se sente mal mamãe ?
Mamãe, já é dia, onde vamos ? O que está acontecendo mamãe?? Porque choras??
Não chore, não vai acontecer nada...
Mamãe, não se deite, ainda são 2 horas da tarde, não tenho sono, quero continuar
brincando com minhas mãozinhas.
Ei!!! O que esse tubinho está fazendo na minha casinha?? É um brinquedo novo??
Olha!!!
Ei, porque estão sugando minha casa?
Mamãe!!! Espere, essa é a minha mãozinha!!! Moço, porque a arrancou??
Não vê que me machuca??
Mamãe, me defenda!!!! Mamãe, me ajude!!! Não vê que ainda sou muito pequena
para me defender sozinha??
Mãe, a minha perninha, estão arrancando!!! Diga para eles pararem, juro a você
que vou me comportar bem e que não vou mais te chutar.
Como é possível que um ser humano possa fazer isso comigo?
Ele vai ver só quando eu for grande e fort.....ai.....mamãe,
já não consigo mais... ai... mamãe, mamãe, me ajude...
Mamãe, já se passaram 17 anos desde aquele dia, e eu daqui de cima observo como
ainda te machuca ter tomado aquela decisão.
Por favor, não chore, lembre-se que te amo muito e que estarei aqui te esperando
com muitos abraços e beijos.

                                                                               Te amo muito,
                                                                               Seu bebê.
		

A marca de uma lágrima

"E o meu amado o que diria
se eu partisse?
O que diria se estes versos
não ouvisse?
O que teria em suas mãos
senão um corpo dessangrado,
cheio de carne, de suspiros,
de delírio apaixonado?
Faltaria, porém, o recheio das idéias,
a loucura e a razão,
que transformam um encontro sem graça
em tremenda paixão!
Mas não tema oh meu querido
que esse amor desapareça,
pois ele é amado ao mesmo tempo
por um corpo e uma cabeça.
O corpo ele pode beijar, cheirar,
fazer do corpo mulher.
Mas a cabeça o possui, manipula
e faz dele o que quer!
Haja o que houver, do meu amor
esse garoto foi o rei.
Digam a ele que com corpo e cabeça
eu sempre o amarei.
A marca dessa lágrima testemunha
que eu o amei perdidamente.
Em suas mãos depositei a minha vida
e me entreguei completamente.
Assinei com minhas lágrimas
cada verso que lhe dei,
como se fossem confetes
de um carnaval que não brinquei.
Mas a cabeça apaixonada delirou
foi farsante, vigarista, mascarada,
foi amante, entregando-lhe outra amada,
foi covarde que amando nunca amou!"

Pedro Bandeira


"Felizes das pessoas que têm a capacidade de emocionar outras pessoas" (Bernadete Bayerl)

A vida é uma vai e vem

A vida é um vai vem.
De Constâncias e indefinições,
A ilusões e contradições.
De paixões sensatas e insensatas,
A conclusões inesperadas.
De impulsos domináveis,
A explosões intermináveis.
De descobertas conseqüentes,
A dificuldade de como aprender a ser gente.
A vida é um vai e vem;
De recepção a doação.
De vários tipos de necessidade,
A momentos de total felicidade.
De fases de sobriedade,
Ao descontrole de dignidade.
Do aumento da potencialidade,
À arruinação de uma mentalidade.
De encontros não percebidos,
A desencontros repetidos.
De tristezas indefinidas,
A saudades reprimidas.
a vida vai.
Vai com seu destino
E seus componentes.
Sua direção
e sua intuição
E a nós passageiros, muita ateção.
A vida vai e vem de maneiras diversas
Porem, jamais
Iguais.
(Bernadete Bayerl)


O melhor possível




"Se você não puder ser um pinheiro no topo da colina,
Seja uma pequena árvore no meio do vale;
Mas seja a melhor árvore à margem do regato...
Se não puder ser árvore,
Seja um ramo,
Se não puder ser um ramo,
Seja um pouco de relva
E dê alegria aos que passam no caminho.
Não podemos ser todos comandantes;
Temos de ser soldados.
Mas há um lugar para todos nós.
Existem grandes e pequenas obras
E sempre há uma tarefa que devemos realizar.
Se não puder ser a estrada real,
Seja uma simples vereda.
Se não puder ser Sol,
Seja uma pequena estrela.
Mas seja o melhor que lhe for possível."


Meu Sonho

Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangrenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso...
E galopas do vale através...
Oh! Da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?
Tu escutas... Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro quem és? _ que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?

O fantasma

Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!

(Alvares de Azevedo)



Da morte não sei o dia

"Há o instante da chegada
e o momento da partida.
Quanta vida eu já vivi?
Quanta resta a ser vivida?

São dois espelhos quebrados
dois vezes sete de má sorte.
Já vivi quatorze anos.
Quanto resta para a morte?

É fácil vê-la chegando
em cada instante que passe,
pois se começa a morrer
no momento que se nasce.

Vou caminhando para a morte,
não decidi meu nascer.
Da morte não sei o dia,
mas posso saber!"

Pedro Bandeira